sexta-feira, 7 de abril de 2017

D. Leonor de Almeida Lorena, 4.ª marquesa de Alorna

n.      31 de outubro de 1750.
f.       11 de outubro de 1839.

Notável poetisa. Nasceu em Lisboa a 31 de outubro de 1750, faleceu em Benfica a 11 de outubro de 1839. Era filha primogénita do 2.º marquês de AIorna e 4.º conde de Assumar, D. João de Almeida Portugal, e de sua mulher, D. Leonor de Lorena e Távora. (V. 2.º marquês de Alorna). Era irmã do 3.º marquês de Alorna e 5.º conde de Assumar, D. Pedro de Almeida de Portugal, e de D. Maria de Almeida, que casou com D. Luís António da Câmara, 6.º conde da Ribeira Grande.

D. Leonor de Almeida teve uma infância muito atribulada, pois logo na idade de oito anos foi encerrada como prisioneira em companhia de sua mãe e sua irmã no convento de Chelas, enquanto que seu pai fora preso e encarcerado na torre de Belém, passando depois para o forte da Junqueira, como suspeito de ter tido conhecimento do célebre crime dos Távoras. O marquês de Pombal ordenara aquela prisão, em vista dos laços de parentesco que ligava a família dos marqueses de Alorna com a dos marqueses de Távora. Este grande infortúnio durou dezoito anos, findos os quais, por morte do rei D. José, D. Maria I, subindo ao trono, mandou pôr em liberdade todos os prisioneiros do Estado; alguns, porém, não quiseram usar da liberdade sem que primeiro fosse proclamada a sua inocência. O marquês, seu pai, entrou neste número.

Na sua reclusão do convento de Chelas, passou a primeira quadra da vida, em companhia de sua mãe e de sua irmã, entregando-se a profundos estudos, à composição de melodiosas poesias, que alcançaram grande fama e que figuraram depois nas suas obras completas com o titulo de Poesias de Chelas. Estavam então em moda os chamados outeiros pela corte, e principalmente pelos conventos, e além dos sócios da Arcádia, havia bons poetas, entre os quais se distinguia Francisco Manuel do Nascimento, com o nome Flinto Elísio. Este poeta, com alguns amigos, começou a ir ao convento de Chelas, recitando versos, pedindo motes às freiras, esperando nessas ocasiões encontrar D. Leonor de Almeida e ouvi-la na grade. Com efeito a jovem poetisa apareceu, brilhou e confundiu os admiradores do seu talento. Data destes encontros o nome de Alcipe, com que eles a celebraram, assim como o de Daphne, que deram a sua irmã, D. Maria de Almeida, futura condessa da Ribeira Grande.

Era permitido e tolerado em todos os conventos, nessa época, quando alguma senhora, freira ou secular, se via gravemente enferma, e algum parente insuspeito a queria visitar, como pai, irmão ou filho, tomar este o lugar dum dos criados do convento, e conduzir à cela da enferma qualquer coisa que por outra pessoa não conviesse que fosse levada. Achava-se a marquesa muito doente, e vinha para lhe falar seu filho D. Pedro, depois 3.º marquês de Alorna; D. Leonor, vendo o irmão chegar à portaria, e estando ali o aguadeiro com o barril, fez com que D. Pedro pusesse o barril às costas, e assim fosse encontrar-se com sua mãe. Havia, porém, a circunstância desta senhora ser presa do Estado, o que causou grande impressão, havendo denuncia para o arcebispo de Lacedemónia. O prelado obrigou D. Leonor a não sair da cela, determinando-lhe que cortasse os cabelos e se vestisse de cor honesta. D. Leonor no fez caso desta ordem, e quando o arcebispo voltou, ameaçou-a com o marquês de Pombal, ao que a distinta poetiza respondeu com altivez que não era professa. O arcebispo conteve-se, e desistiu de a apoquentar.

Seu pai enviava-lhes com dificuldade cartas escritas com o seu próprio sangue, a que a jovem poetisa começou a responder, desde que completou onze anos de idade, em consequência da enfermidade de sua mãe. Houve um momento em que mostrou desejos de professar, pelo desgosto inaudito que sofreu, vendo que tinha perdido uma das cartas de seu pai; chegou a fazer os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loiola, que em lugar de dez dias, segundo a prática, foram de vinte. Dissuadiu-a desse propósito frei Alexandre da Silva, tio de Almeida Garrett (V. este nome), e que depois foi bispo de Malaca. Apesar dos seus trabalhos artísticos e literários, porque D. Leonor entregava-se também à pintura, dispunha ainda dalgumas horas para se dedicar ao serviço de enfermeira, de refeitoreira e de organista do convento. Conhecia a fundo varias línguas, tinha uma vasta instrução científica, desenhava e pintava admiravelmente, sem desdenhar ao mesmo tempo as prendas próprias do seu sexo. Era de carácter afável, sabia amenizar com a sua meiguice e candura filial as amarguras de sua pobre mãe, tornara-se muito querida pela sua amabilidade de todas as religiosas do convento.

Quando o marquês saiu da prisão, dirigiu-se ao convento, onde na grade o esperavam sua mulher e filhas, acompanhadas de parentes e mais pessoas para o cumprimentarem. O marquês e sua família foram viver para a quinta de Vale de Nabais, que possuiam nas proximidades de Almeirim. Mais tarde voltaram para Lisboa. O marquês reunia então nas suas salas a mais brilhante e aristocrática sociedade, tanto de portugueses como de estrangeiros. D. Leonor de Almeida era o encanto e o enlevo daquela brilhante e distinta sociedade, seu talento elevado, espírito finíssimo, o prestígio do infortúnio que sofrera, a audácia de ter afrontado as iras do marquês de Pombal, a tornavam digna da maior consideração e respeito. Enamorou-se então dum fidalgo alemão, o conde Carlos Augusto de Oeynhausen, que viera a Portugal com seu primo, o conde de Schaumbourg-Lippe, o qual fora contratado em 1762 pelo marquês de Pombal para organizar e comandar o nosso exército. O conde de Oeynhausen, para desposar D. Leonor de Almeida, não duvidou converter-se à religião católica. O casamento realizou-se em 15 de fevereiro de 1779, sendo madrinha a rainha D. Maria I e padrinho o rei seu marido, D. Pedro III. O conde foi armado cavaleiro da Ordem militar de Cristo, cerimónia a que assistiu toda a corte. A rainha deu-lhe o abraço ou acolade, o rei pôs-lhe o cinturão e tocou-lhe com a espada nua, os príncipes D. José e D. João ajudaram os reis seus pais na investidura. Tendo o comando do 1.º Regimento de Infantaria do Porto, o conde de Oeynhausen foi residir com sua esposa para aquela cidade; mais tarde teve a nomeação de ministro plenipotenciário de Portugal em Áustria; partiram então para Viena, por terra, ficando uma filhinha, que já havia nascido daquele matrimónio, em poder da marquesa de Alorna, sua avó. Na viagem, demoraram-se nas cortes de Espanha e de França, sendo a condessa recebida o mais lisonjeiramente pelos monarcas daqueles dois países, Carlos III e Luís XVI. Chegando a Viena de Áustria, ganhou logo as simpatias da imperatriz Maria Teresa e do seu sucessor, D. José II. Quando o pontífice Pio VI foi visitar este imperador, também teve a honra de ser recebida pelo papa, assistindo a todas as festas e cerimónias que então se fizeram em homenagem àquela visita. A condessa tornou-se bem depressa notável em Viena como poetisa, e pelos seus trabalhos de pintura. Mandou para Lisboa, a seu pai, o quadro da Soledade; o quadro Amor conjugal foi oferecido à princesa D. Maria Benedita, irmã de D. Maria I. Este quadro ardeu no incêndio do paço de Ajuda. Pintou outros quadros, entre os quais figurava o seu retrato e uma cópia da Sibila, de Guido Reni. A maior parte destes trabalhos ficaram perdidos. A sua saúde não se dava bem com o clima da Áustria; essa razão e os negócios de sua casa que reclamavam a sua presença, obrigaram o conde de Oeynhausen a voltar para Lisboa. Foi então nomeado inspector-geral de infantaria com o posto de tenente-general. Estava também nomeado governador do Algarve, quando faleceu a 3 de março de 1793, tendo apenas cinquenta e quatro anos de idade. D. Leonor de Almeida sentiu muito a morte de seu marido, e retirou-se com seus filhos para as suas propriedades de Almeirim, onde esteve algum tempo, e depois para outras que também possuía em Almada. Entregou-se à educação dos filhos, tornando-se muito estimada por todos, pelos grandes benefícios que dispensava constantemente aos pobres; quando estava em Almeirim, pagava a uma mestra para ensinar as raparigas, tanto daquela vila como das povoações vizinhas, a ler, escrever, coser, e outras prendas próprias do seu sexo.

Sendo muito considerada e respeitada pela família real, não tardou a ser nomeada dama de honor da rainha D. Carlota Joaquina; foi encarregada de elaborar os desenhos para a decoração interna do paço da Ajuda, o que não chegou a executar. Por morte de seu pai, em 1802, partiu para Madrid e de lá para Inglaterra, onde se demorou mais tempo do que tencionava, por ter tido notícia da entrada dos franceses em Portugal e da fuga da família real para o Brasil. Frequentava muito as principais casas inglesas e a do embaixador português, D. Domingos de Sousa Coutinho, conde do Funchal. Voltou contudo, a Lisboa, em 1809; a sua situação tornava-se um tanto crítica: seu irmão, o marquês D. Pedro, partira para França comandando a Legião Portuguesa, e apesar de ter mandado seu filho para o Rio de Janeiro, os governadores do reino a intimaram com instância para sair da capital. Partiu novamente para Inglaterra, onde se demorou até 1813, ano em que faleceu D. Pedro; obtendo então licença para regressar a Portugal, veio residir para Benfica, na casa de seu neto, o marquês de Fronteira, D. José Trasimundo de Mascarenhas Barreto. A condessa empreendeu alcançar a reabilitação da memória de seu irmão, que fora condenado como traidor à pátria; só no fim de dez anos, depois de muita luta, é que o conseguiu, e foi somente nessa época que passou a usar do título de 4.ª marquesa de Alorna, e 6.ª condessa de Assumar, como herdeira de seu irmão. D. Pedro de Almeida foi o ultimo marquês da casa de Alorna.

A filha mais velha de D. Leonor de Almeida, chamada D. Leonor Benedita, casou com o 6.º marquês de Fronteira, D. João José de Mascarenhas Barreto. Por decreto de 22 de outubro de 1839, e carta de julho de 1844, ficou sendo 5.º marquês de Alorna e 7.º marquês de Fronteira, D. José Trasimundo de Mascarenhas Barreto. O título de conde de Assumar não foi renovado, e desde então o título de Alorna ficou ligado ao título de Fronteira. Depois da morte de seu filho, o conde de Oeynhausen Dom Carlos Ulrico, sucedida em 14 de agosto de 1822, a condessa ficou vivendo em grande tristeza, e poucas vezes saía do seu retiro. O título de Oeynhausen fora herdado por morte de seu pai; era o de um condado alemão. A marquesa de Alorna só compareceu na abertura real das Cortes em 1826, servindo de camareira-mor, e em 1828, como dama de honor da infanta D. Isabel Maria, na sessão em que a infanta entregou o governo do reino a seu irmão, o infante D. Miguel. Assistiu ao Te Deum, que se cantou na Sé, quando D. Pedro e D. Maria II entraram em Lisboa; às exéquias de D. Pedro IV, ao casamento de D. Maria II com o príncipe D. Augusto de Leuchtenberg. Ao segundo casamento de D. Maria II com D. Fernando não pode assistir, por causa da sua avançada idade, mas os soberanos não se esqueceram de ir visitá-la a Benfica. No dia 24 de julho de 1833, o duque da Terceira e o marquês de Fronteira foram também visitá-la, apenas entraram em Lisboa. A rainha D. Maria II concedeu-lhe a banda da Ordem de Santa Isabel. A marquesa de Alorna também era dama da Ordem da Cruz Estrelada, da Alemanha. Faleceu com oitenta e nove anos de idade. Os títulos de 6.ª condessa de Assumar e 4.ª marquesa de Alorna foram renovados por decreto de 26 de outubro de 1833. A marquesa foi sempre súbdita multo respeitosa e obediente aos soberanos. Sendo pouco afeiçoada à medicina, e tendo por inúteis os remédios na sua idade, sua filha D. Henriqueta lembrou-se de lhe falar em nome da rainha, para que tomasse os remédios, que os médicos receitassem. Só assim consentiu em os tomar.

Das filhas da marquesa de Alorna, contam-se também: D. Juliana, que casou com o segundo conde da Ega, Aires José Maria de Saldanha Albuquerque Coutinho Matos e Noronha; enviuvando, passou a segundas núpcias com o conde de Strogonoff, na Rússia, Gregório Alexandre Ironwisch; D. Henriqueta, que foi dama da rainha D. Maria II; D. Luísa, que casou com Heliodoro Jacinto Carneiro de Araújo, fidalgo cavaleiro da Casa Real, do conselho de D. João VI.

As obras da marquesa de Alorna foram publicadas depois da sua morte, e são as seguintes: Obras poéticas de D. Leonor de Almeida, etc., conhecida entre os poetas portugueses pelo nome de "Alcipe", Lisboa, 1844, com o retrato da autora. São seis volumes. Tomo I: Notícia biográfica da marquesa, seguida de outra notícia histórica de seu esposo o conde de Oeynhausen; Poesias compostas no mosteiro de Chelas; Poesias escritas depois da saída do mosteiro de Chelas. - Tomo II: Continuação das poesias líricas, escritas depois da saída do mosteiro de Chelas.- Tomo III: A primavera, tradução livre do poema das Estações de Thompson; os primeiros seis cantos do Oberon, poema de Wieland, traduzidos do alemão; Darthula, poema traduzido de Ossian; tradução de uma parte do livro I da Ilíada em oitava rima -Tomo IV: Recreações botânicas, poema original em seis cantos; O Cemitério da aldeia, elegia, imitada de Gray; O Eremita, balada imitada de Goldsmith; Ode, imitada de Fulvio Testi; Ode de Lamartine a Flinto Elísio, traduzida; Epistola a lord Byron, imitação da 2ª meditação de Lamartine; imitação da 28ª meditação do mesmo poeta, intitulada: Deus - Tomo V: Poética de Horácio, traduzida com o texto; Ensaio sobre a critica, de Pope com o texto; O rapto de Proserpina, poema de Claudiano em quatro livros com o texto - Tomo VI: Paráfrase dos cento e cinquenta salmos que compõem o Saltério, em várias espécies de ritmo seguida da paráfrase do vários cânticos bíblicos e hinos da igreja. Parece que a paráfrase dos salmos não fora feita sobre a vulgata, mas sim sobre a versão italiana de Xavier Matthei. Uma parte do Saltério já fora publicada em vida da autora, num volume de 4.º, impresso em Lisboa, em 1833. A outra parte saíra também anteriormente com o título: Paráfrase e vários salmos, Lisboa, 1817; também haviam sido impressas em Londres em 8.º gr. as traduções da Poética de Horácio, e do Ensaio sobre a crítica, de Pope. Também foi publicada ainda em vida da autora: De Buonaparte e dos Bourbons; e da necessidade de nos unirmos aos nossos legítimos príncipes, para felicidade da França e da Europa: por F. A. de Chateaubriand. Traduzido em linguagem por uma senhora portuguesa, Londres, 1814; Ensaio sobre a indiferença em matéria de religião: tradução. de Lamennais, Lisboa, 1820, 2 tomos; Estudo biográfico-crítico, a respeito da literatura portuguesa, de Romero Ortiz, de págs. 61 a 96, que saíra também na Revista de España, tomo IX; Elegia à morte de S. A. R. o príncipe do Brasil o Sr.. D. José, Lisboa, 1788.

Biografai retirada de Arqnet




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