sexta-feira, 28 de abril de 2017

Biografia de Ferdinand de Saussure


Elementos biográficos e breves dados sobre a sua obra elaborados por Jorge de Freitas. Os seus trabalhos de investigação permitiram o estabelecimento da linguística como ciência.

Ferdinand de Saussure faz os seus primeiros estudos no colégio de Hafwyl, perto de Berna. Em 1870, entra para o Instituto Marline, onde complementa os conhecimentos que já detinha de francês, inglês e alemão com o estudo da língua grega. Em 1872, termina um manuscrito intitulado Essai sur les langues. Dois anos depois, começa a estudar o sânscrito. Em virtude de ser oriundo de uma família com elevada cultura científica, inicia, em 1875, os seus estudos universitários na área das ciências exactas. Porém, após dois semestres, abandona esta área, prosseguindo estudos linguísticos em Leipzig, Berlim e Paris. Em 1877, antes de perfazer vinte anos de idade, já Saussure criava notoriedade apresentando à Société de Linguistique de Paris uma memória sobre o sistema primitivo das vogais nas línguas indo-europeias. Aos vinte e dois anos de idade, apresenta, em Leipzig, como tese de doutoramento, um estudo sobre o emprego do genitivo absoluto em sânscrito. Inicia, então, a carreira de professor universitário, leccionando primeiramente a cadeira de Gramática Comparada na Escola de Altos Estudos de Paris (1881-1891) e, posteriormente, na Universidade de Genebra, as cadeiras de Linguística Indo-europeia e Sânscrito (1891-1906) e Linguística (1906-1012). Insatisfeito com explicações linguísticas parciais, tenta, durante largos anos, estabelecer princípios metodológicos coerentes, considerando-os, no entanto, sempre prematuros, razão pela qual nunca os comunica oficialmente. Em 1915, dois anos após a morte de Saussure, os seus discípulos Charles Bally e Albert Séchehaye publicam um apanhado de três cursos que este havia ministrado no âmbito da cadeira de Linguística, atribuíndo-lhe o título "Cours de Linguistique Générale".

A linguagem é uma faculdade humana que torna possível a produção social de sistemas de signos que servem para comunicar: as línguas. O sistema linguístico é um fenómeno social que deve ser estudado na sua estrutura, abstraíndo todas as relações históricas. A fala, como acto individual de utilização da língua num contexto particular, não é o objecto da linguística.

[...] a língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos; mas esta é necessária para que a língua se estabeleça; historicamente, a fala precede sempre. Como seríamos capazes de associar uma ideia a uma imagem verbal se antes não tivéssemos surpreendido uma associação num acto de fala? Por outro lado, é ouvindo os outros que aprendemos a nossa língua materna; ela só se instala no sosso cérebro após inúmeras experiências. Por último, é a fala que faz evoluir a língua: são as impressões recebidas ao ouvirmos os outros que modificam os nossos hábitos linguísticos. Há, portanto, interdependência da língua e da fala; aquela é, ao mesmo tempo, o instrumento e o produto desta. Mas tudo isto não as impede de serem duas coisas absolutamente diferentes.
[ Curso de Linguística Geral, Editorial D.Quixote, 7ª Edição, Janeiro de 1995, pp.48 e 49 ]

Chamamos signo à combinação do conceito e da imagem acústica [...] Propomos manter a palavra signo para designar o total e substituir conceito e imagem acústica respectivamente por significado e significante.
[ Curso de Linguística Geral, Editorial D.Quixote, 7ª Edição, Janeiro de 1995, pp.123 e 124 ]

Saussurre dividiu em duas vertentes o estudo da linguagem: a sincrónica, que se limita a examinar uma linguagem particular num determinado período da sua existência (por exemplo, o português actual) e a diacrónica, que aborda o estudo histórico do desenvolvimento da linguagem (por exemplo, a evolução do português medieval até aos nossos dias).
Na prática, um estudo da língua não é um ponto, mas um espaço de tempo, mais ou menos longo, durante o qual a quantidade de modificações ocorridas é mínima. Podem ser dez anos, uma geração, um século, mesmo mais. Por vezes, uma língua evolui lentamente durante um longo intervalo e, em seguida, sofre transformações consideráveis em poucos anos. De duas línguas coexistentes num mesmo período, uma pode evoluir muito e outra quase nada; no segundo caso, o estudo será necessariamente sincrónico, no outro diacrónico.
[ Curso de Linguística Geral, Editorial D.Quixote, 7ª Edição, Janeiro de 1995, p.174 ]

Curso de Linguística Geral, Lisboa, Editorial D.Quixote

Biografia retirada daqui

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Biografia de Adolfo Caminha

Escritor cearense, um dos principais representantes do naturalismo no Brasil, sua obra, densa, trágica e pouco apreciada na época, é repleta de descrições de perversões e crimes. Adolfo Ferreira Caminha nasceu no dia 29 de maio de 1867 na cidade de Aracati. Ainda na infância se muda com a família para o Rio de Janeiro. Em 1883 ingressa na Marinha de Guerra, chegando ao posto de segundo-tenente. Cinco anos mais tarde se transfere para Fortaleza, onde é obrigado a dar baixa, depois de seqüestrar a esposa de um alferes, com a qual passa a viver. Trabalha como guarda-marinha e começa a escrever. Em 1893 publica A Normalista, romance em que traça um quadro pessimista da vida urbana, "esse acervo de mentiras galantes e torpezas dissimuladas". Vai para os Estados Unidos e, das observações da viagem, resulta No País dos Ianques (1894). No ano seguinte provoca escândalo, mas firma sua reputação literária ao escrever Bom Crioulo , obra na qual aborda a questão do homossexualismo. Colabora também com a imprensa carioca, em jornais como Gazeta de Notícias e Jornal do Comércio. Já tuberculoso, lança o último romance, Tentação, em 1896. Morre no Rio de Janeiro no dia 1º de janeiro de 1897.


Noticia retirada daqui

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Biografia de Jean-Baptiste-Antoine-Marcelin, barão de Marbot

Famoso memorialista da época napoleónica.
Nasceu em Altillac, França, em 18 de Agosto de 1782; 
morreu em Paris em 16 de Novembro de 1854.

Membro de uma família nobre do Quercy, era filho do general Marbot, antigo membro das guardas do corpo do rei Luís XV de França, mais tarde ajudante de campo do conde de Schomberg, e com a guerra da revolução general de divisão nos exércitos franceses que combateram nos Pirinéus.

O pai morreu em 1801, deixando dois filhos, o mais novo dos quais - Jean Marcelin -, entrou para o exército aos 17 anos, para o regimento de hussardos n.º 1, tendo sido ajudante de campo de três marechais do Império - Augereau (de 1803 a 1807), Lannes (de 1808 a 1809) e Masséna (de 1809 a 1811) -, e participado por isso em todas as campanhas importantes do Império. Nestas funções chegou, em 1810, ao posto de major, sendo nomeado cavaleiro do império. 

Fez como segundo ajudante de campo de Masséna a campanha de Portugal de 1810-1811, conhecida como Terceira Invasão Francesa de Portugal.

Em 1812 foi promovido a coronel do regimento de Caçadores n.º 23, participando na campanha da Rússia desse ano e na campanha da Alemanha de 1813. Em 1814, com a Restauração dos Bourbons em França, e o licenciamento do regimento, foi transferido para o comando do regimento de hussardos n.º 7.

Foi promovido a general de brigada, em 17 de Junho de 1815, nas vésperas da batalha de Waterloo, mas a derrota de Napoleão impediu a confirmação da nomeação. Proscrito em Julho de 1815 pela segunda Restauração, partiu para o exílio regressando a França em 1819. Publicou em 1820 a  obra Remarques critiques, em que respondia ao tratado sobre a guerra do general Joseph Rogniat, em que defendia a importância do factor humano, em contraste com a teoria pura de Rogniat. Em 1825 publicou uma obra sobre o novo exército francês, com o título De la nécessité d'augmenter les forces militaires de la France. Napoleão doou-lhe cem mil francos no seu testamento, com a seguinte declaração: «... Ao coronel Marbot: proponho-lhe que continue a escrever em defesa da glória das armas francesas, confundindo os caluniadores e os apóstatas!...»

Reintegrado no exército em Março de 1829, enquanto comandante do regimento de Caçadores n.º 8, com a subida ao trono de Luís-Filipe de Orléans, após a Revolução de Julho  de 1830, tornou-se ajudante de campo de Fernando, duque de Orléans, príncipe real e comandante-chefe do Exército francês. Foi promovido ao generalato em Outubro seguinte, e nesse posto participou no cerco de Anvers, na guerra de independência da Bélgica e combateu na Argélia. Em 1845 foi nomeado Par de França.

As Memórias da época do Império, foram escritas para os seus filhos, tendo sido publicadas somente em 1891.

Fontes:
Marbot, général Baron de, 
«Le général de Marbot (Article du Journal des Débats du 22 novembre de 1854)» in Mémoires, tome IV: La Bérézina - Leipzig - Waterloo, 
Paris, Plon, 1921

Enciclopédia Britânica

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Biografia de Charles-Louis de Secondat, barão de Montesquieu

Escritor e filósofo francês, célebre pela sua teoria da separação dos poderes.
Nasceu no Palacete de la Brède, perto de Bordéus, em 18 de Janeiro de 1689; morreu em Paris, em 10 de Fevereiro de 1755.

Filho de um oficial da guarda do rei de França, neto e sobrinho de um Presidente do Parlamento de Bordéus, ficou órfão de mãe aos 11 anos de idade. O seu ensino básico foi entregue aos Oratorianos do colégio de Juilly, localidade situada a nordeste de Paris, que frequentou em companhia de dois primos, e onde lhe foi ministrada uma educação clássica.

Regressado a Bordéus, em 1705, realizou os estudos jurídicos necessários à sua entrada no Parlamento de Bordéus, para poder herdar o título e as importantes funções do tio. A admissão como conselheiro deu-se em 1708. Após a conclusão destas formalidades regressou a Paris, onde concluiu os seus estudos jurídicos e onde frequentou assiduamente a Academia das Ciências e das Letras. Regressou a Bordéus em 1713 devido à morte do Pai. Em 1715, casou com uma calvinista francesa, o que lhe assegurou um valioso dote. No ano seguinte o tio morreu tornando-se barão de Montesquieu e presidente no Parlamento de Bordéus.

Em 1721 publicou as Cartas Persas, obra que lhe granjeou um enorme sucesso, e onde, aproveitando o gosto da época pelas coisas orientais, analisou de uma maneira satírica as instituições, usos e costumes da sociedade francesa e europeia, criticando veementemente a religião católica, naquela que foi a primeira grande crítica à igreja no século XVIII. Muitas das afirmações de Montesquieu serão «confirmadas» por Edward Gibbon, quando este autor inglês publicou o Decline and Fall of the Roman Empire, em que defendeu que a queda do império se deveu ao predomínio da igreja cristã no Império romano, a partir de Constantino. 

Em 1726 renunciou ao seu cargo no Parlamento de Bordéus, vendeu-o e foi viver para Paris, preparando-se para entrar na Academia Francesa. Aceite em 1728, viajou logo a seguir pela Europa, realizando assim o seu Grand Tour, a tradicional viagem educativa dos intelectuais europeus do século VIII. Regressou a França, mas foi para Inglaterra, onde permanecerá durante dezoito meses.

Em 1731, após uma ausência de três anos, regressou a Bordéus, para a sua família e os seus negócios, assim como para as vinhas e os campos agrícolas à volta do seu Palacete de Brède. Voltará frequentemente a Paris, onde teve contactos ocasionais com os célebres salons, mas sem se ligar muito com o grupo de intelectuais que os animava.

O seu grande objectivo passou a ser completar aquela que será a sua grande obra - O Espírito das Leis. Preenchendo uma etapa intermédia, escreveu e publicou em 1734 a Causa da Grandeza dos Romanos e da sua decadência, que não é mais do que um capítulo de apresentação do Espírito. 

O Espírito das Leis foi publicado em 1748, em dois volumes, em Genebra, para evitar a censura, tornando-se um imenso sucesso, que a sua colocação no Index romano não beliscou. A sua preocupação foi ultrapassar as posições dos filósofos e utópicos que apresentavam as suas teorias em abstracto e sem nenhuma consideração pelas determinantes espaciais e temporais.

Os tempos que se seguiram estiveram longe de serem sossegados, sendo as suas teorias atacadas tanto pelos jansenistas como pelos católicos ortodoxos, como os jesuítas, mas também pela Universidade de Paris, a célebre Sorbonne. Defendeu-se das críticas publicando em 1755 a Defesa do Espírito das Leis. Entretanto ia perdendo a visão.

Morreu em 1755, quase cego, tendo recebido os últimos sacramentos das mãos de um padre católico.

Informação retirada daqui

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Marquesa de Alorna

Marquesa de Alorna, a 4ª desse título, nome de baptismo de Leonor de Almeida Lorena e Lencastre. Escritora, nasceu em Lisboa durante o reinado do rei D. José. Neta dos marqueses de Távora, e filha de D. João de Almeida Portugal, 2º marquês de Alorna e 4º conde de Assumar e de Dª Maria de Lorena, filha dos marqueses de Távora, suspeitos do atentado ao rei. Dos presumíveis implicados uns foram executados e Leonor, com a mãe e irmã encarceradas no convento de S. Félix em Chelas. Foi aqui que, desde pequena, a futura marquesa começou a ler e a instruir-se não desprezando a leitura de Bossuet, Fénelon, Boileau, Corneille e Racine, bem como Voltaire, d'Alembert, Diderot e o inglês Locke. Começou cedo a escrever poesia. Teve como mestre de latim Filinto Elísio (padre Francisco Manuel do Nascimento) e aprendeu Filosofia e Ciências Naturais. Tomou, como era uso no tempo, o nome literário de Alcipe. Leonor de Almeida Portugal saiu da prisão quando subiu ao trono D. Maria I. Tinha então vinte anos. Casou, em 1779 com o conde de Oeynhausen e em 1780 foram viver para a Viena de Áustria. Enviuvou, com 43 anos, em 1793 e ficou com seis filhos pequenos para cuidar. Regressou a Portugal e foi perseguida por Pina Manique, dadas as suas ideias liberais. Exilou-se em Londres entre 1804 e 1814. Foi escrevendo poemas que acompanhavam as angustiosas mudanças políticas no país, desde as invasões francesas à partida da família real para o Brasil. Esteve contra Napoleão o que não aconteceu com muitos fidalgos portugueses, incluindo a filha que foi amante de Junot. Herdou o título de marquesa, pela morte do irmão. D. Leonor de Almeida deixou seis volumes de "Obras Poéticas" com temas diversos, sendo de referir a importância das cartas particulares. Foi também tradutora de Lamartine, Pope, Ossian, Goldsmith, Young, entre outros. Alexandre Herculano fez-lhe o elogio fúnebre, considerando-a a "madame de Staël portuguesa."

Biografia retirada de O Leme

terça-feira, 11 de abril de 2017

Sophia de Melo Breyner Andresen

Poeta e ficcionista portuguesa, nasceu no Porto numa família aristocrata. Muito pequena começou a escrever poesia. O seu imaginário riquíssimo foi embalado nas histórias da "Nau Catrineta" ,bem como nas aventuras de Gulliver, em "Sindbad o Marinheiro" e nas "Mil e Uma Noites". Foi uma poeta apaixonada pelo mar e pela cultura grega. Estudou Letras em Lisboa, que não concluiu. Escreveu "Poesia" em 1944 a que se seguiram "Dia do Mar", "Coral", "No Tempo Dividido", Mar Novo", "O Cristo Cigano", “Livro Sexto”, “Geografia”, “Dual”, "O Nome das Coisas", "Navegações" e "Ilhas". Casada com o jornalista Francisco de Sousa Tavares, foi mãe de cinco filhos e para eles terá começado a escrever, os enormes sucessos como livros para a juventude como a "A Menina do Mar", "A Fada Oriana", "O Cavaleiro da Dinamarca" e "A Floresta". Sophia, politicamente de esquerda, teve bastantes problemas com a polícia política do regime salazarista. Lutou pela liberdade como tantos outros. É considerada a mais importante poeta da literatura contemporânea. Recebeu diversos prémios e na Internet pudemos encontrar muitos poemas seus.

Biografia retirada de O Leme

domingo, 9 de abril de 2017

Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa-Luís

Escritora portuguesa, nascida em Vila Meã, Amarante. Começou a escrever aos 16 anos. Casou, em 1945, com Alberto de Oliveira Luís. Viveu em Coimbra até 1948, data em que publicou a novela “Mundo Fechado”. Passa a residir no Porto a partir de 1950, ano em que publica no Porto "Os Super-Homens", primeiro romance. O reconhecimento do seu talento de romancista viria em 1953 com a atribuição do Prémio Delfim Guimarães ao livro "A Sibila", galardoado no ano seguinte com o Prémio Eça de Queiroz. Dos romances que se lhe seguiram, destacam-se “Os Incuráveis” (1956) e “Ternos Guerreiros” (1960). Estreou-se no teatro com "O Inseparável" (1958). Romances dos anos sessenta e setenta são a trilogia "As Relações Humanas" (1964-66), "As Pessoas Felizes" (1975) ou "As Fúrias" (1977), mais tarde adaptado ao teatro. "O Concerto dos Flamengos" (1994) é uma incursão notável pela história de Maria da Borgonha e do seu casamento com Carlos o Temerário. Agustina recebeu quase todos os grandes prémios de literatura em Portugal: o Grande Prémio de Romance e Novela da APE 1983 com “Os Meninos de Ouro”, os Prémios Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa em 1966 e 1977, o Prémio D. Dinis, da Casa de Mateus, em 1981, o Prémio do Pen-Clube português em 1980 e o Prémio Camões em 2004. Teve uma breve incursão na política quando aceitou ser directora do Teatro Nacional D. Maria II num governo do Partido Social-Democrata. É sócia da Academia das Ciências de Lisboa (1979), foi-lhe atribuída a Comenda da Ordem Militar de Santiago da Espada (1980) e é sócia das Académie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres, de Paris (1988) e da Academia Brasileira de Letras (1989). Está traduzida em vários países e os seus livros já foram passados ao cinema como “Francisca”, de Manoel de Oliveira, “A Corte do Norte”, “Prazer e Glória” e “Vale Abraão”. (Adaptação da biografia da responsabilidade do Instituto Camões)

Biografia retirada de O Leme

sexta-feira, 7 de abril de 2017

D. Leonor de Almeida Lorena, 4.ª marquesa de Alorna

n.      31 de outubro de 1750.
f.       11 de outubro de 1839.

Notável poetisa. Nasceu em Lisboa a 31 de outubro de 1750, faleceu em Benfica a 11 de outubro de 1839. Era filha primogénita do 2.º marquês de AIorna e 4.º conde de Assumar, D. João de Almeida Portugal, e de sua mulher, D. Leonor de Lorena e Távora. (V. 2.º marquês de Alorna). Era irmã do 3.º marquês de Alorna e 5.º conde de Assumar, D. Pedro de Almeida de Portugal, e de D. Maria de Almeida, que casou com D. Luís António da Câmara, 6.º conde da Ribeira Grande.

D. Leonor de Almeida teve uma infância muito atribulada, pois logo na idade de oito anos foi encerrada como prisioneira em companhia de sua mãe e sua irmã no convento de Chelas, enquanto que seu pai fora preso e encarcerado na torre de Belém, passando depois para o forte da Junqueira, como suspeito de ter tido conhecimento do célebre crime dos Távoras. O marquês de Pombal ordenara aquela prisão, em vista dos laços de parentesco que ligava a família dos marqueses de Alorna com a dos marqueses de Távora. Este grande infortúnio durou dezoito anos, findos os quais, por morte do rei D. José, D. Maria I, subindo ao trono, mandou pôr em liberdade todos os prisioneiros do Estado; alguns, porém, não quiseram usar da liberdade sem que primeiro fosse proclamada a sua inocência. O marquês, seu pai, entrou neste número.

Na sua reclusão do convento de Chelas, passou a primeira quadra da vida, em companhia de sua mãe e de sua irmã, entregando-se a profundos estudos, à composição de melodiosas poesias, que alcançaram grande fama e que figuraram depois nas suas obras completas com o titulo de Poesias de Chelas. Estavam então em moda os chamados outeiros pela corte, e principalmente pelos conventos, e além dos sócios da Arcádia, havia bons poetas, entre os quais se distinguia Francisco Manuel do Nascimento, com o nome Flinto Elísio. Este poeta, com alguns amigos, começou a ir ao convento de Chelas, recitando versos, pedindo motes às freiras, esperando nessas ocasiões encontrar D. Leonor de Almeida e ouvi-la na grade. Com efeito a jovem poetisa apareceu, brilhou e confundiu os admiradores do seu talento. Data destes encontros o nome de Alcipe, com que eles a celebraram, assim como o de Daphne, que deram a sua irmã, D. Maria de Almeida, futura condessa da Ribeira Grande.

Era permitido e tolerado em todos os conventos, nessa época, quando alguma senhora, freira ou secular, se via gravemente enferma, e algum parente insuspeito a queria visitar, como pai, irmão ou filho, tomar este o lugar dum dos criados do convento, e conduzir à cela da enferma qualquer coisa que por outra pessoa não conviesse que fosse levada. Achava-se a marquesa muito doente, e vinha para lhe falar seu filho D. Pedro, depois 3.º marquês de Alorna; D. Leonor, vendo o irmão chegar à portaria, e estando ali o aguadeiro com o barril, fez com que D. Pedro pusesse o barril às costas, e assim fosse encontrar-se com sua mãe. Havia, porém, a circunstância desta senhora ser presa do Estado, o que causou grande impressão, havendo denuncia para o arcebispo de Lacedemónia. O prelado obrigou D. Leonor a não sair da cela, determinando-lhe que cortasse os cabelos e se vestisse de cor honesta. D. Leonor no fez caso desta ordem, e quando o arcebispo voltou, ameaçou-a com o marquês de Pombal, ao que a distinta poetiza respondeu com altivez que não era professa. O arcebispo conteve-se, e desistiu de a apoquentar.

Seu pai enviava-lhes com dificuldade cartas escritas com o seu próprio sangue, a que a jovem poetisa começou a responder, desde que completou onze anos de idade, em consequência da enfermidade de sua mãe. Houve um momento em que mostrou desejos de professar, pelo desgosto inaudito que sofreu, vendo que tinha perdido uma das cartas de seu pai; chegou a fazer os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loiola, que em lugar de dez dias, segundo a prática, foram de vinte. Dissuadiu-a desse propósito frei Alexandre da Silva, tio de Almeida Garrett (V. este nome), e que depois foi bispo de Malaca. Apesar dos seus trabalhos artísticos e literários, porque D. Leonor entregava-se também à pintura, dispunha ainda dalgumas horas para se dedicar ao serviço de enfermeira, de refeitoreira e de organista do convento. Conhecia a fundo varias línguas, tinha uma vasta instrução científica, desenhava e pintava admiravelmente, sem desdenhar ao mesmo tempo as prendas próprias do seu sexo. Era de carácter afável, sabia amenizar com a sua meiguice e candura filial as amarguras de sua pobre mãe, tornara-se muito querida pela sua amabilidade de todas as religiosas do convento.

Quando o marquês saiu da prisão, dirigiu-se ao convento, onde na grade o esperavam sua mulher e filhas, acompanhadas de parentes e mais pessoas para o cumprimentarem. O marquês e sua família foram viver para a quinta de Vale de Nabais, que possuiam nas proximidades de Almeirim. Mais tarde voltaram para Lisboa. O marquês reunia então nas suas salas a mais brilhante e aristocrática sociedade, tanto de portugueses como de estrangeiros. D. Leonor de Almeida era o encanto e o enlevo daquela brilhante e distinta sociedade, seu talento elevado, espírito finíssimo, o prestígio do infortúnio que sofrera, a audácia de ter afrontado as iras do marquês de Pombal, a tornavam digna da maior consideração e respeito. Enamorou-se então dum fidalgo alemão, o conde Carlos Augusto de Oeynhausen, que viera a Portugal com seu primo, o conde de Schaumbourg-Lippe, o qual fora contratado em 1762 pelo marquês de Pombal para organizar e comandar o nosso exército. O conde de Oeynhausen, para desposar D. Leonor de Almeida, não duvidou converter-se à religião católica. O casamento realizou-se em 15 de fevereiro de 1779, sendo madrinha a rainha D. Maria I e padrinho o rei seu marido, D. Pedro III. O conde foi armado cavaleiro da Ordem militar de Cristo, cerimónia a que assistiu toda a corte. A rainha deu-lhe o abraço ou acolade, o rei pôs-lhe o cinturão e tocou-lhe com a espada nua, os príncipes D. José e D. João ajudaram os reis seus pais na investidura. Tendo o comando do 1.º Regimento de Infantaria do Porto, o conde de Oeynhausen foi residir com sua esposa para aquela cidade; mais tarde teve a nomeação de ministro plenipotenciário de Portugal em Áustria; partiram então para Viena, por terra, ficando uma filhinha, que já havia nascido daquele matrimónio, em poder da marquesa de Alorna, sua avó. Na viagem, demoraram-se nas cortes de Espanha e de França, sendo a condessa recebida o mais lisonjeiramente pelos monarcas daqueles dois países, Carlos III e Luís XVI. Chegando a Viena de Áustria, ganhou logo as simpatias da imperatriz Maria Teresa e do seu sucessor, D. José II. Quando o pontífice Pio VI foi visitar este imperador, também teve a honra de ser recebida pelo papa, assistindo a todas as festas e cerimónias que então se fizeram em homenagem àquela visita. A condessa tornou-se bem depressa notável em Viena como poetisa, e pelos seus trabalhos de pintura. Mandou para Lisboa, a seu pai, o quadro da Soledade; o quadro Amor conjugal foi oferecido à princesa D. Maria Benedita, irmã de D. Maria I. Este quadro ardeu no incêndio do paço de Ajuda. Pintou outros quadros, entre os quais figurava o seu retrato e uma cópia da Sibila, de Guido Reni. A maior parte destes trabalhos ficaram perdidos. A sua saúde não se dava bem com o clima da Áustria; essa razão e os negócios de sua casa que reclamavam a sua presença, obrigaram o conde de Oeynhausen a voltar para Lisboa. Foi então nomeado inspector-geral de infantaria com o posto de tenente-general. Estava também nomeado governador do Algarve, quando faleceu a 3 de março de 1793, tendo apenas cinquenta e quatro anos de idade. D. Leonor de Almeida sentiu muito a morte de seu marido, e retirou-se com seus filhos para as suas propriedades de Almeirim, onde esteve algum tempo, e depois para outras que também possuía em Almada. Entregou-se à educação dos filhos, tornando-se muito estimada por todos, pelos grandes benefícios que dispensava constantemente aos pobres; quando estava em Almeirim, pagava a uma mestra para ensinar as raparigas, tanto daquela vila como das povoações vizinhas, a ler, escrever, coser, e outras prendas próprias do seu sexo.

Sendo muito considerada e respeitada pela família real, não tardou a ser nomeada dama de honor da rainha D. Carlota Joaquina; foi encarregada de elaborar os desenhos para a decoração interna do paço da Ajuda, o que não chegou a executar. Por morte de seu pai, em 1802, partiu para Madrid e de lá para Inglaterra, onde se demorou mais tempo do que tencionava, por ter tido notícia da entrada dos franceses em Portugal e da fuga da família real para o Brasil. Frequentava muito as principais casas inglesas e a do embaixador português, D. Domingos de Sousa Coutinho, conde do Funchal. Voltou contudo, a Lisboa, em 1809; a sua situação tornava-se um tanto crítica: seu irmão, o marquês D. Pedro, partira para França comandando a Legião Portuguesa, e apesar de ter mandado seu filho para o Rio de Janeiro, os governadores do reino a intimaram com instância para sair da capital. Partiu novamente para Inglaterra, onde se demorou até 1813, ano em que faleceu D. Pedro; obtendo então licença para regressar a Portugal, veio residir para Benfica, na casa de seu neto, o marquês de Fronteira, D. José Trasimundo de Mascarenhas Barreto. A condessa empreendeu alcançar a reabilitação da memória de seu irmão, que fora condenado como traidor à pátria; só no fim de dez anos, depois de muita luta, é que o conseguiu, e foi somente nessa época que passou a usar do título de 4.ª marquesa de Alorna, e 6.ª condessa de Assumar, como herdeira de seu irmão. D. Pedro de Almeida foi o ultimo marquês da casa de Alorna.

A filha mais velha de D. Leonor de Almeida, chamada D. Leonor Benedita, casou com o 6.º marquês de Fronteira, D. João José de Mascarenhas Barreto. Por decreto de 22 de outubro de 1839, e carta de julho de 1844, ficou sendo 5.º marquês de Alorna e 7.º marquês de Fronteira, D. José Trasimundo de Mascarenhas Barreto. O título de conde de Assumar não foi renovado, e desde então o título de Alorna ficou ligado ao título de Fronteira. Depois da morte de seu filho, o conde de Oeynhausen Dom Carlos Ulrico, sucedida em 14 de agosto de 1822, a condessa ficou vivendo em grande tristeza, e poucas vezes saía do seu retiro. O título de Oeynhausen fora herdado por morte de seu pai; era o de um condado alemão. A marquesa de Alorna só compareceu na abertura real das Cortes em 1826, servindo de camareira-mor, e em 1828, como dama de honor da infanta D. Isabel Maria, na sessão em que a infanta entregou o governo do reino a seu irmão, o infante D. Miguel. Assistiu ao Te Deum, que se cantou na Sé, quando D. Pedro e D. Maria II entraram em Lisboa; às exéquias de D. Pedro IV, ao casamento de D. Maria II com o príncipe D. Augusto de Leuchtenberg. Ao segundo casamento de D. Maria II com D. Fernando não pode assistir, por causa da sua avançada idade, mas os soberanos não se esqueceram de ir visitá-la a Benfica. No dia 24 de julho de 1833, o duque da Terceira e o marquês de Fronteira foram também visitá-la, apenas entraram em Lisboa. A rainha D. Maria II concedeu-lhe a banda da Ordem de Santa Isabel. A marquesa de Alorna também era dama da Ordem da Cruz Estrelada, da Alemanha. Faleceu com oitenta e nove anos de idade. Os títulos de 6.ª condessa de Assumar e 4.ª marquesa de Alorna foram renovados por decreto de 26 de outubro de 1833. A marquesa foi sempre súbdita multo respeitosa e obediente aos soberanos. Sendo pouco afeiçoada à medicina, e tendo por inúteis os remédios na sua idade, sua filha D. Henriqueta lembrou-se de lhe falar em nome da rainha, para que tomasse os remédios, que os médicos receitassem. Só assim consentiu em os tomar.

Das filhas da marquesa de Alorna, contam-se também: D. Juliana, que casou com o segundo conde da Ega, Aires José Maria de Saldanha Albuquerque Coutinho Matos e Noronha; enviuvando, passou a segundas núpcias com o conde de Strogonoff, na Rússia, Gregório Alexandre Ironwisch; D. Henriqueta, que foi dama da rainha D. Maria II; D. Luísa, que casou com Heliodoro Jacinto Carneiro de Araújo, fidalgo cavaleiro da Casa Real, do conselho de D. João VI.

As obras da marquesa de Alorna foram publicadas depois da sua morte, e são as seguintes: Obras poéticas de D. Leonor de Almeida, etc., conhecida entre os poetas portugueses pelo nome de "Alcipe", Lisboa, 1844, com o retrato da autora. São seis volumes. Tomo I: Notícia biográfica da marquesa, seguida de outra notícia histórica de seu esposo o conde de Oeynhausen; Poesias compostas no mosteiro de Chelas; Poesias escritas depois da saída do mosteiro de Chelas. - Tomo II: Continuação das poesias líricas, escritas depois da saída do mosteiro de Chelas.- Tomo III: A primavera, tradução livre do poema das Estações de Thompson; os primeiros seis cantos do Oberon, poema de Wieland, traduzidos do alemão; Darthula, poema traduzido de Ossian; tradução de uma parte do livro I da Ilíada em oitava rima -Tomo IV: Recreações botânicas, poema original em seis cantos; O Cemitério da aldeia, elegia, imitada de Gray; O Eremita, balada imitada de Goldsmith; Ode, imitada de Fulvio Testi; Ode de Lamartine a Flinto Elísio, traduzida; Epistola a lord Byron, imitação da 2ª meditação de Lamartine; imitação da 28ª meditação do mesmo poeta, intitulada: Deus - Tomo V: Poética de Horácio, traduzida com o texto; Ensaio sobre a critica, de Pope com o texto; O rapto de Proserpina, poema de Claudiano em quatro livros com o texto - Tomo VI: Paráfrase dos cento e cinquenta salmos que compõem o Saltério, em várias espécies de ritmo seguida da paráfrase do vários cânticos bíblicos e hinos da igreja. Parece que a paráfrase dos salmos não fora feita sobre a vulgata, mas sim sobre a versão italiana de Xavier Matthei. Uma parte do Saltério já fora publicada em vida da autora, num volume de 4.º, impresso em Lisboa, em 1833. A outra parte saíra também anteriormente com o título: Paráfrase e vários salmos, Lisboa, 1817; também haviam sido impressas em Londres em 8.º gr. as traduções da Poética de Horácio, e do Ensaio sobre a crítica, de Pope. Também foi publicada ainda em vida da autora: De Buonaparte e dos Bourbons; e da necessidade de nos unirmos aos nossos legítimos príncipes, para felicidade da França e da Europa: por F. A. de Chateaubriand. Traduzido em linguagem por uma senhora portuguesa, Londres, 1814; Ensaio sobre a indiferença em matéria de religião: tradução. de Lamennais, Lisboa, 1820, 2 tomos; Estudo biográfico-crítico, a respeito da literatura portuguesa, de Romero Ortiz, de págs. 61 a 96, que saíra também na Revista de España, tomo IX; Elegia à morte de S. A. R. o príncipe do Brasil o Sr.. D. José, Lisboa, 1788.

Biografai retirada de Arqnet




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