terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Biografia de Miguel Torga

Conheci Miguel Torga em Coimbra. Encontrava-o muitas vezes no eléctrico carreira nº 3, quando ambos regressávamos dos nossos respectivos trabalhos, nos anos 70, rumo à parte alta da cidade.

Médico que sempre foi a par de escritor, terminava as consultas no seu consultório no Largo da Portagem, 45 e eu já apanhara o mesmo eléctrico duas paragens antes, na Av. Fernão de Magalhães onde trabalhava então, na Federação dos Grémios da Lavoura da Província da Beira Litoral, num prédio emblemático, todo forrado a azulejos amarelos, que felizmente ainda não sofreu a voragem das demolições, mesmo junto à estação dos caminhos-de-ferro, mais conhecida em Coimbra por Estação Nova.
O meu pai, Manuel de Paiva Boléo, foi professor da Universidade de Coimbra na Faculdade de Letras e, desde sempre, na minha família se falou de Miguel Torga, também porque a mulher do escritor, Andrée Crabbé Rocha também professora de Letras cruzava-se com o meu pai na faculdade. Uma irmã minha, amiga do Leandro Morais Sarmento morava ao lado de Miguel Torga e passavam lá muitos fins de tarde a conversar. Lembro-me da minha irmã comentar que lhe parecia Miguel Torga ter uma grande angústia perante a morte, o que é patente no seu «Diário».
A admiração e o conhecimento da obra de Miguel Torga eram partilhados na minha família, onde a minha mãe nos recitava «Herodes» “o tal das tranças” lá na Judeia que foi para o Inferno “só porque não gostava de crianças” e outros textos.
Como é sabido Miguel Torga não era uma pessoa muito dada, mas eu várias vezes meti conversa com ele, até porque era temas não faltavam dado vivermos na mesma cidade. Mais de uma vez fiquei ao seu lado no tal eléctrico, e, se muitas pessoas o conheciam, muitas mais naquela carreira ignoravam quem era aquele senhor, de faces magras, como que esculpidas em rocha, com um tom de pela escura e um olhar penetrante. Com o tempo muitas mais sabiam que ele era um escritor de repercussão mundial e uma das glórias de Coimbra, embora ali não tenha nascido.
Mais tarde, nos anos 90, conheci em Lisboa uma japonesa que foi professora de literatura portuguesa numa universidade de Tóquio e que traduziu vários textos de Miguel Torga para japonês. Chama-se Takiko Okamura e é muito conhecida no meio literário português, porque já foi bolseira do Instituto Camões e penso que da Gulbenkian e que além de Torga já traduziu José Cardoso Pires e «Os Lusíadas» para japonês e publicou há escassos anos (2003, salvo erro) uma bem documentada biografia de Wenceslau de Morais, em japonês. A professora Takiko admirava muito Miguel Torga com quem esteve na sua terra natal mais de uma vez e com quem tirou fotografias, que me mostrou.
A religiosidade de Torga que perpassa pela sua obra é tão autêntica, percebe-se que foi forjada na vida dura que levou em criança, na relação próxima entre o céu e a terra. Mais tarde, no Brasil em casa do tal tio que o obrigava a trabalhos duros, a imensidão da natureza e quantas vezes não se terá interrogado sobre o que afinal fazemos neste mundo e um Deus que nem sempre nos parece magnânimo, perante tanta rudeza que nos rodeia, nas relações humanas e da paisagem agreste.
Adolfo Correia Rocha, nasceu a 12 de Agosto (dia de Santa Clara) de 1907 em S. Martinho de Anta, numa pequena aldeia de Trás-os-Montes, distrito de Vila Real. Filho de camponeses pobres, o pequeno Adolfo foi sempre muito chegado à mãe por quem nutria uma enorme afeição, como ele próprio diria em «A Criação do Mundo». Eram três irmãos. Em 1913 Adolfo Rocha terminou a escola primária com o Sr. Botelho, a quem Miguel Torga dirá que deveu muito da sua formação.

«Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição»

Miguel Torga, pseudónimo que escolheu por duas razões: Miguel por ser o nome próprio de dois mestres da língua castelhana como Cervantes (1547-1616) e Unamuno (1864-1936) grandes escritores também preocupados com a alma humana. E Torga de «torgas» urzes que florescem nas terras transmontanas, cor de vinho, com profundas raízes bem metidas nas rochas. Que melhor nome poderia ter escolhido? Não é ele também uma rocha, até no nome? 
Adolfo terminou a 4ª classe com distinção e o pai percebeu que devia continuar a estudar, o que era raro na época nos meios rurais. Escapou assim à vida no campo e à enxada, que trocaria pela caneta. O pai ofereceu-lhe um cavaquinho quando terminou a 4ª classe e por não ter posses para o poder mandar estudar disse-lhe: «tens de escolher ou o Seminário ou o Brasil»
Adolfo Rocha esteve um ano no Seminário de Lamego, mas aos 13 anos (em 1920) optou pelo Brasil tendo ido para casa de um tio – fazenda de Santa Cruz, no Estado de Minas Gerais. Ali a vida do futuro escritor não foi fácil: mungir as vacas, cujo leite era o alimenta da casa, tratar dos porcos, ir ao moinho, ir a cavalo buscar o correio longe da fazenda, fazer a escrita e tudo o mais que fosse preciso. Foram dias de inferno para o jovem Adolfo, não tanto pelo trabalho, mas porque os tios lhe não dedicavam grande afecto, e ele que adorava a mãe, sentia fortemente a sua ausência.
Em 1925, como recompensa pelo trabalho de cinco anos o tio anuncia-lhe que lhe paga os estudos num colégio em Coimbra. Fez em três anos o liceu que era de sete.
Em 1928 entrou para o curso de medicina. Escreveu o primeiro livro de versos «Ansiedade» e em 1929 dá-se com o grupo da revista «Presença», onde pontoavam José Régio, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, mas cedo o individualismo de Torga o afasta do grupo.
É a altura em que o jovem estudante de medicina e literato lê os grandes nomes da literatura mundial: Gide, Dostoievski, Ibsen, Proust, Jorge Amado, Cecília Meireles, etc. Em 1930 publica «Rampa». «Tributo» e «Pão Ázimo» em 1931.
Em 1932 começou a publicar o que seriam dezasseis volumes do «Diário».
Acaba a licenciatura em 1933 e passa a exercer a sua especialidade de clínica geral, na sua terra natal e em Vila Nova de Miranda do Corvo, mas cedo se radica em Coimbra.
Em 1934 usa pela primeira vez o pseudónimo que o imortalizaria – Miguel Torga, em «A Terceira Voz».
Escreve, em 11 de Dez de 1934, o poema «Prece»:

«Senhor deito-me na cama/Coberto de sofrimento;/ E a todo o comprimento/Sou sete palmos de lama:/Sete palmos de excremento/Da terra-mãe que me chama./Senhor, ergo-me do fim/Desta minha condição:/Onde era assim, digo não,/Onde era não, digo sim;/Mas não calo a voz do chão/Que grita dentro de mim./Senhor acaba comigo/Antes do dia marcado;/O tiro de um inimigo.../Qualquer pretexto tirado/Dos sarcasmos que te digo.» 

Em 1937 escreve «A Criação do Mundo» iniciando uma autobiografia ficcionada. Viaja pela Europa: França, Itália, Bélgica, Espanha e por Portugal e colabora na Revista de Portugal dirigida pelo escritor Vitorino Nemésio. Escreve «Peregrinação»

«Corro o mundo à procura dum poema/Que perdi não sei quando, nem sei onde./Chamo por ele, e a voz que me responde/Tem o timbre da minha, desbotado./Às vezes no mar largo ou no deserto/Parece-me que sim, que o sinto perto/Da inspiração;/Mas sigo afoito em cada direcção/E é o vazio passado/Acrescentado.../Areia movediça ou solidão./Teimoso lutador, não desanimo/Olho o monte mais alto e subo ao cimo,/ A ver se ao pé do céu sou mais feliz./Mas aí nem sequer ouço o que digo;/O silêncio de Orfeu vem ter comigo/E nega os versos que afinal não fiz.»

Adolfo Rocha/Miguel Torga chegou a ter, em 1939, um consultório em Leiria, mas passava os fins-de-semana em Coimbra, com professores e intelectuais como Paulo Quintela e Vitorino Nemésio em casa de quem conheceu a futura mulher – Adrée Crabbé, de apelido, por casamento, Rocha.
Um texto de Miguel Torga sobre a guerra civil espanhola levou-o à prisão, onde esteve três meses. Casou em 27 de Julho de 1940.
Em 1941 abriu consultório de médico em Coimbra, no Largo da Portagem, com vista sobre o Mondego – a «sua» janela para o mundo.
Escreve os célebres contos «Montanha» (mais tarde com o título «Contos da Montanha» apreendido pela Censura. Começa a escrever o seu célebre «Diário».
Miguel Torga fez edições de autor, porque se recusava a entregar os textos previamente à Censura, como era obrigatório na época e porque, dizem os que o conheceram de perto que era extremamente económico.
O seu romance «O Senhor Ventura» data de 1943, mais tarde será transposto para o cinema e foi um dos primeiros a ser traduzido para o chinês, há poucos anos. Penso que também foi traduzido pela Takiko Okamura, de que falei, para japonês.
A sua vida literária decorre com regulares edições. A mulher completa o doutoramento em 1947. A filha nasceu em 1955.
Em 1954 recusou um prémio literário atribuído por ocasião das comemorações do Centenário de Almeida Garrett.
Em 1960 o prof. Jean-Baptiste Aquarone (da Faculdade de Letras de Universidade de Montpelier) propõe Miguel Torga para prémio Nobel da Literatura. O escritor recebe em 1969 o Prémio Literário Diário de Notícias.
Com o 25 de Abril de 1974 escreveu no Diário XII: 

«Golpe Militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que durante macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à Tirania. Quem poderá esquecê-lo. Mas pronto de qualquer maneira é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada...»

Em 1976 foi-lhe atribuído o Grande Prémio Internacional de Poesia da XII Bienal de Knokke-Heist (Bélgica). Dois anos depois foi de novo proposto para prémio Nobel. Em 1978 a Fundação Calouste Gulbenkian prestou-lhe homenagem nos 50 anos de carreira literária. Em 1980 recebeu o Prémio Morgado de Mateus, ex-equo com o escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade.
A 10 de Junho de 1989 o júri do Prémio Camões dá-lhe esse prestigiado galardão e, em Janeiro de 1991, a revista «Le Cheval de Troie» dedica-lhe um número especial. É mais uma vez nomeado para o Nobel da Literatura pela Associação Portuguesa de Escritores.
Em 1993 publica o 16º vol. de «Diário». O último onde escreve o poema «Requiem por mim»
A 17 de Janeiro de 1995, às 12,33 minutos deixa este mundo.
Fiquemos com estas suas palavras:

«Ser livre é um imperativo que não passa pela definição de nenhum estatuto. Não é um dote, é um Dom». 

Biografia retirada daqui

sábado, 28 de janeiro de 2017

Português - Biografia de João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett

Escritor e Dramaturgo romântico, foi o proponente da edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e da criação do Conservatório.

Nasceu no Porto, em 4 de Fevereiro de 1799; 
morreu em Lisboa em 9 de Dezembro de 1854.

Filho segundo do selador-mor da Alfândega do Porto, acompanhou a família quando esta se refugiou nos Açores, onde tinha propriedades, fugindo da segunda invasão francesa, realizada pelo exército comandado pelo marechal Soult que entrando em Portugal por Chaves se dirigiu para o Porto, ocupando-o.

Passou a adolescência na ilha Terceira, tendo sido destinado à vida eclesiástica, devendo entrar na Ordem de Cristo, por intercedência do tio paterno, Frei Alexandre da Sagarada Família, bispo de Malaca e depois de Angra. 

Em 1816, tendo regressado a Portugal, inscreveu-se na Universidade, na Faculdade de Leis, sendo aí que entrou em contacto com os ideais liberais. Em Coimbra, organiza uma loja maçónica, que será frequentada por alunos da Universidade como  Manuel Passos. Em 1818, começa a usar o apelido Almeida Garrett, assim como toda a sua família.

Participa entusiasticamente na revolução de 1820, de que parece ter tido conhecimento atempado, como parece provar a poesia As férias, escrita em 1819. Enquanto dirigente estudantil e orador defende o vintismo com ardor escrevendo um Hino Patriótico recitado no Teatro de São João. Em 1821, funda a Sociedade dos Jardineiros, e volta aos Açores numa viagem de possível motivação maçónica. De regresso ao Continente, estabelece-se em Lisboa, onde continua a publicar escritos patrióticos. Concluindo a Licenciatura em Novembro deste ano.

Em Coimbra publica o poema libertino O Retrato de Vénus, que lhe vale ser acusado de materialista e ateu, assim como de «abuso da liberdade de imprensa», de que será absolvido em 1822. Torna-se secretário particular de Silva Carvalho, secretário de estado dos Negócios do Reino, ingressando em Agosto na respectiva secretaria, com o lugar de chefe de repartição da instrução pública. No fim do ano, em 11 de Novembro, casa com Luísa Midosi.

A Vilafrancada, o golpe militar de D. Miguel que, em 1823, acaba com a primeira experiência liberal em Portugal, leva-o para o exílio. Estabelece-se em Março de 1824 no Havre, cidade portuária francesa na foz do Sena, mas em Dezembro está desempregado, o que o leva a ir viver para Paris. Não lhe sendo permitido o regresso a Portugal, volta ao seu antigo emprego no Havre. Em 1826 está de volta a Paris, para ir trabalhar na livraria Aillaud. A mulher regressa a Portugal. 

É amnistiado após a morte de D. João VI, regressando com os últimos emigrados, após a outorga da Carta Constitucional, reocupando em Agosto o seu lugar na Secretaria de Estado. Em Outubro começa a editar «O Português, diário político, literário e comercial», sendo preso em finais do ano seguinte. Libertado, volta ao exílio em Junho de 1828, devido ao restabelecimento do regime absoluto por D. Miguel. De 1828 a Dezembro de 1831 vive em Inglaterra, indo depois para França, onde se integra num batalhão de caçadores, e mais tarde, em 1832, para os Açores integrado na expedição comandada por D. Pedro IV. Nos Açores transfere-se para o corpo académico, sendo mais tarde chamado, por Mouzinho da Silveira, para a Secretaria de Estado do Reino. 

Participa na expedição liberal que desembarca no Mindelo e ocupa o Porto em Julho de 1832. No Porto, é reintegrado como oficial na secretaria de estado do Reino, acumulando com o trabalho na comissão encarregada do projecto de criação do Códigos Criminal e Comercial. Em Novembro parte com Palmela para uma missão a várias cortes europeias, mas a missão é dissolvida em Janeiro e Almeida Garrett vence abandonado em Inglaterra, indo para Paris onde se encontra com a mulher. Só com a ocupação de Lisboa em Julho de 1833, consegue apoio para o seu regresso, que acontece em Outubro. Em Novembro é nomeado secretário da comissão de reforma geral dos estudos. Em Fevereiro do ano seguinte é nomeado cônsul-geral e encarregado de negócios na Bélgica, onde chega em Junho, mas é de novo abandonado pelo governo. Regressa a Portugal em princípios de 1835, regressando ao seu posto em Maio. Estava em Paris, em tratamento, quando foi substituído sem aviso prévio na embaixada belga. Nomeado embaixador na Dinamarca, é demitido antes mesmo de abandonar a Bélgica.

Estes sucessivos abandonos por parte dos governos cartistas, levam-no a envolver-se com o Setembrismo, dando assim origem à sua carreira parlamentar. Logo em 28 de Setembro de 1836 é incumbido de apresentar uma proposta para o teatro nacional, o que faz propondo a organização de uma Inspecção-Geral dos Teatros, a edificação do Teatro D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática. Os anos de 1837 e 1838, são preenchidos nas discussões políticas que levarão à aprovação da Constituição de 1838, e na renovação do teatro nacional.

Em 20 de Dezembro é nomeado cronista-mor do Reino, organizando logo no princípio de 1839 um curso de leituras públicas de História. No ano seguinte o curso versa a «história política, literária e científica de Portugal no século XVI».

Em 15 de Julho de 1841 ataca violentamente o ministro António José d'Ávila, num discurso a propósito da Lei da Décima, o que implica a sua passagem para a oposição, e o leva à demissão de todos os seus cargos públicos. Em 1842, opõem-se à restauração da Carta proclamada no Porto por Costa Cabral. Eleito deputado nas eleições para a nova Câmara dos Deputados cartista, recusa qualquer nomeação para as comissões parlamentares, como toda a esquerda parlamentar. No ano seguinte ataca violentamente o governo cabralista, que compara ao absolutista. 

É neste ano de 1843 que começou a publicar, na Revista Universal Lisbonense, as Viagens na Minha Terra, descrevendo a viagem ao vale de Santarém começada em 17 de Julho. Anteriormente, em 6 de Maio, tinha lido no Conservatório Nacional uma memória em que apresentou a peça de teatro Frei Luís de Sousa, fazendo a primeira leitura do drama.

Continuando a sua oposição ao Cabralismo, participa na Associação Eleitoral, dirigida por Sá da Bandeira, assim como nas eleições de 1845, onde foi um dos 15 membros da minoria da oposição na nova Câmara. Em 17 de Janeiro de 1846, proferiu um discurso em que considerava a minoria como representante da «grande nação dos oprimidos», pedido em 7 de Maio a demissão do governo, e em Junho a convocação de novas Cortes. 

Com o despoletar da revolução da Maria da Fonte, e da Guerra Civil da Patuleia, Almeida Garrett que apoia o movimento, tem que passar a andar escondido, reaparecendo em Junho, com a assinatura da Convenção do Gramido.

Com a vitória cartista e o regresso de Costa Cabral ao governo, Almeida Garrett é afastado da vida política, até 1852. Em 1849, passa uma breve temporada em casa de Alexandre Herculano, na Ajuda. Em 1850, subscreve com mais de 50 outras personalidades um Protesto contra a Proposta sobre a Liberdade de Imprensa, mais conhecida por «lei das rolhas». Costa Cabral nomeia-o, em Dezembro,  para a comissão do monumento a D. Pedro IV

Com o fim do Cabralismo e o começo da Regeneração,  em 1851, Almeida Garrett é consagrado oficialmente. É nomeado sucessivamente para a redacção das instruções ao projecto da lei eleitoral, como plenipotenciário nas negociações com a Santa Sé, para a comissão de reforma da Academia das Ciências, vogal na comissão das bases da lei eleitoral, e na comissão de reorganização dos serviços públicos, para além de vogal do Conselho Ultramarino, e de estar encarregado da redacção do que irá ser o  Acto  Adicional à Carta. Em 25 de Junho é agraciado com o título de Visconde, em duas vidas.

Em 1852 é eleito novamente deputado, e de 4 a 17 de Agosto será ministro dos Negócios Estrangeiros. A sua última intervenção no Parlamento será  em Março de 1854 em ataca o governo na pessoa de Rodrigo de Fonseca Magalhães.

Morre devido a um cancro de origem hepática, tendo sido sepultado no Cemitério dos Prazeres.


Fontes: 
Leituras - Revista da Bibilioteca Nacional, n.º 4, Primavera de 1999 (número consagrado a Almeida Garrett, e integrada nas comemorações do Bicentenário do seu nascimento);

António José Saraiva e Óscar Lopes
História da Literatura Portuguesa,
Porto, Porto Editora, 1975

Biografia retirada daqui

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Português - Biografia de Joaquim Pedro de Oliveira Martins

n.      30 de abril de 1845.
f.       21 de agosto de 1894.

Escritor, jornalista, deputado, ministro de Estado, sócio da Academia Real das Ciências, vice-presidente da Junta do Crédito Publico, etc.

Nasceu em Lisboa a 30 de abril de 1845, onde também faleceu a 21 de agosto de 1894. Era filho de Francisco Cândido Gonçalves Martins, oficial da Junta do Credito Publico, e de sua mulher, D. Maria Henriqueta Morais de Oliveira; neto paterno do desembargador Joaquim Pedro Gomes de Oliveira, que foi por duas vezes ministro do rei D. João VI, e membro do governo supremo do Reino em 1820 até à constituição das cortes, em 26 de janeiro de 1821.

Cursou as aulas do Liceu Nacional de Lisboa, chegando a fazer alguns exames. Seus pais desejavam que seguisse a carreira militar estudando engenharia, mas por infelicidade ficou órfão aos doze anos de idade, porque seu pai faleceu em 1857, vítima da febre-amarela, que nesse ano assaltou a capital, deixando viúva e seis filhos em más circunstâncias. Faltando-lhe recursos, teve de interromper os estudos, dedicando-se à vida comercial para angariar meios de subsistência, exercendo desde então no comércio ou na indústria diversos empregos. 

Através duma vida difícil, mas guiado pelo amor de sua mãe, foi completando a sua educação literária, até que em 1870 se empregou nas minas de Santa Eufémia, de Córdova, e partindo nesse ano para Espanha, ali se conservou até 1874, ano em que veio para o Porto, onde fixou residência, conseguindo o lugar de director da exploração do caminho de ferro do Porto à Povoa do Varzim e Vila Nova de Famalicão. Em 1878 apresentou-se no concurso aberto pela Academia Real das Ciências de Lisboa, com a memória relativa à Circulação fiduciária, que lhe valeu o prémio da medalha de ouro da mesma academia, e o título de sócio correspondente. Em 1880 foi eleito presidente da Sociedade de Geografia Comercial do Porto, de que se demitiu dois anos depois, em 1882, sendo-lhe então conferido o título de presidente honorário. Nesse mesmo ano a Real Academia, de Espanha lhe conferiu o diploma de sócio correspondente. Oliveira Martins também era sócio do Instituto de Coimbra, e de diversas sociedades científicas nacionais e estrangeiras. 

Em 1881 fez parte da comissão distrital do Porto, no inquérito industrial, e redigiu o relatório da mesma comissão. Este relatório foi impresso em separado no Porto; e depois incorporado na edição oficial de Lisboa. Em 1884 foi nomeado membro da direcção do Museu Industrial e Comercial do Porto, e vogal da comissão encarregada de propor ao governo algumas providências tendentes a melhorar a situação das classes operarias, com respeito ao trabalho; aos salários, ás crises industriais, e a outros assuntos de interesse publico. As suas ideias avançadas o afastaram algum tempo dos partidos monárquicos, mas depois, mudando de orientação, passou ás fileiras da monarquia, fundando em 1885 o jornal A Província. Em 1883 foi deputado pela primeira vez, eleito por Viana do Castelo, e em 1887 o elegeu o círculo do Porto, sendo reeleito ainda em outras legislaturas. No ano de 1887 apresentou ao parlamento o seu projecto de lei sobre fomento rural. Dirigiu a Régie antes do actual monopólio do tabaco. Em 1888, a Associação dos Tipógrafos do Porto ofereceu-lhe uma estatueta simbolizando o trabalho, em tributo de reconhecimento pela protecção dispensada à classe. Fez parte da comissão executiva da Exposição Industrial Portuguesa com uma secção agrícola, que nesse ano de 1888 se realizou em Lisboa na Avenida da Liberdade. No estrangeiro, Oliveira Martins igualmente ilustrou o seu nome e o de Portugal. Assim, o representou em 1890 na conferência internacional de Berlim e nada Propriedade Industrial de Madrid, onde em 1891 foi convidado para a conferência realizada no Ateneu para a celebração do centenário de Cristóvão Colombo. Recebeu depois a grã-cruz do Mérito Nacional. Em 1892, no ministério que se organizou sob a presidência do Dr. Dias Ferreira; foi convidado para a pasta da fazenda, que geriu desde 17 de janeiro até 27 de Maio. Em 1893 foi eleito membro da Junta do Crédito Publico, exercendo nessa alta corporação, sob a qual seu pai e seu irmão tinham servido como empregados públicos, o lugar de vice-presidente.

Colaborou nos principais jornais literários e científicos de Portugal, corno: O Arquivo Pitoresco, Ocidente, Dois Mundos, publicado em Paris; Revista Ocidental, Revista Científica, Revista de Portugal, Revista de Educação e Ensino; além dos jornais políticos: A Província, O Tempo, Jornal do Comércio, O Repórter, Protesto, e em outros jornais socialistas; no Cruzeiro, do Rio de Janeiro, e outros jornais do Brasil, para onde escrevia correspondências. Em 1873 entrou numa notável polémica acerca do livro do sr. conselheiro Júlio de Vilhena, As raças históricas da península ibérica, sendo o seu primeiro artigo de análise inserto no Jornal do Comércio de julho do mesmo ano. O sr. Júlio de Vilhena respondeu a esta apreciação com quatro artigos, sob o título: Do lugar da idade média na historia da civilização, resposta ao sr. Oliveira Martins, no Jornal do Comércio, de 6, 7, 8 e 9 de Agosto. O sr. Júlio de Vilhena ainda respondeu às novas explicações do seu contendor no jornal de 10 de setembro. Em 1879, de acordo com os editores Viúva Bertrand & C.a, sucessores Carvalho & C.a, fundou uma Biblioteca das ciências sociais, de que saíram alguns tomos. A morte de Oliveira Martins foi muito sentida. Na câmara dos deputados fez o sr. conselheiro Francisco da Veiga Beirão o seu elogio histórico, na sessão de 24 de outubro de 1891. No ano de 1903, uma comissão de amigos dedicados de Oliveira Martins mandou erigir no cemitério dos Prazeres um jazigo monumento à sua memória, para onde foram trasladados no dia 21 de novembro desse ano os seus restos mortais, que se conservavam depositados no jazigo de sua família. Conjuntamente foram recolhidos no novo jazigo os restos mortais de sua mãe, D., Maria Henriqueta Morais de Oliveira, sendo os ofícios fúnebres celebrados na capela do cemitério. O túmulo é trabalho do apreciado escultor Teixeira Lopes, assim como a estátua da História, que se vê ali colocada.

Do principio federativo e sua aplicação á península hispânica: série de artigos no Jornal do Comércio, de 19, 21, 21, 24 e 25 de setembro de 1869; Os Lusíadas; ensaio sobre Camões e a sua obra, em relação à sociedade portuguesa e ao movimento da renascença, Porto, 1872; Portugal e socialismo; exame constitucional da sociedade portuguesa e sua reorganização pelo socialismo, Lisboa, 1873; Teoria do socialismo; evolução política e económica das sociedades na Europa, Lisboa, 1873; Teófilo Braga e o cancioneiro; A reorganização do Banco de Portugal, Porto, 1877; As eleições, Porto, 1878; O helenismo e a civilização cristã, Porto, 188; A circulação fiduciária, etc., Lisboa,.1883; Historia da civilização ibérica, Porto, 1880; Historia de Portugal, 2 tomos, Porto, 1882; O Brasil e as colónias portuguesas, Porto, 1881; Portugal contemporâneo, 2 tomos, Porto, 1881; a respeito desta obra escreveu José Joaquim Rodrigues de Freitas uma extensa carta ao autor, impressa em separado, com o título de Portugal contemporâneo do sr. Oliveira Martins, Porto, 1881; Elementos de antropologia; história natural do homem, Porto, 1881; As raças humanas e a civilização primitiva, Porto, 1881; A linguistica; Sistema dos mitos religiosos, Porto, 1882; Quadro das instituições; primitivas, Porto, 1883; O regimen das riquezas, elementos de chrematistica, Porto, 1883; Tábuas de cronologia e geografia histórica; Portugal nos mares; Navegação e descobrimentos dos portugueses; Historia da republica romana; Phebus Moniz; O artigo «Banco» no Dicionário Universal; Política e economia nacional; Elogio histórico de Anselmo Braamcamp; O empréstimo português de 1832; Carteira dum jornalista; Portugal em África; Inglaterra; Inglaterra de hoje; A população e a emigração; Teorias das instituições políticas; Geografia política e estatística das nações; Os filhos de D. João I; D. Nuno Alvares Pereira. Quando faleceu andava escrevendo um livro de crítica histórica do tempo de D. João II, que foi, depois concluído por Carlos Lobo de Ávila. V. Lobo de Ávila (Carlos).

Informação retirada daqui

domingo, 22 de janeiro de 2017

Português - Biografia de Antero de Quental

n.      18 de abril de 1842.
f.       11 de setembro de 1891.

Bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra; publicista, homem político, filósofo e poeta. Nasceu em Ponta Delgada a 18 de abril de 1842, onde também faleceu a 11 de setembro de 1891. Era descendente duma das mais antigas famílias das ilhas dos Açores, sendo filho de Fernando do Quental.

Depois de estudar as primeiras letras na sua terra natal, veio para Lisboa e cursou as aulas do estabelecimento de ensino fundado e dirigido por António Feliciano de Castilho. Em 1856 foi matricular-se em direito na Universidade de Coimbra, tomando o grau de bacharel em 1864. Desde 1860 que o jovem poeta se tornara conhecido no mundo literário, com a publicação em opúsculo anónimo, segundo Raimundo Capella, da poesia À historia, cujas estrofes são as que abrem a primeira edição das Odes modernas. Desde esse ano apareceram também várias poesias e artigos de prosa nos jornais Académico, Prelúdios literários, Estreia literária, Fósforo, publicados em Coimbra. Em 1861 saiu dos prelos da Imprensa Literária da mesma cidade, um folheto intitulado Sonetos de Antero. Em 1863 publicou-se o poemeto Beatrice, e a poesia Fiat lux, que se tornou raríssima, por ter o seu autor inutilizado quase todos os exemplares, poucos dias depois de impressos. Mas em 1865 é que se publicou, também em Coimbra, o volume das Odes modernas, que marcou a Antero do Quental um lugar de destaque nas letras portuguesas. Deste livro se fez segunda edição no Porto em 1875, contendo varias composições inéditas. No Porto também saiu, em 1871, o volume das Primaveras românticas, com o subtítulo de versos dos vinte anos. A série das suas publicações em prosa, encetou-a Antero do Quental em Coimbra, em 1865, com a sua Defesa da Carta encíclica de Sua Santidade Pio IX contra a chamada opinião liberal; este opúsculo tem esta dedicatória: “A todos os católicos sinceros e convictos. A todos os hereges sinceros e convictos. Testemunho de boa-fé.”

Outro opúsculo, publicado no mesmo ano de 1865, é que provocou uma verdadeira tempestade literária, denominada A questão coimbrã. Intitulava-se Bom senso e bom gosto; carta ao ex.mo Sr. António Feliciano de Castilho; reimprimiu-se primeira e segunda vez, contando ao todo três edições. A virulenta e prolongada polémica literária que derivou daquele opúsculo, chegou ao extremo de redundar num duelo à espada entre Quental e Ramalho Ortigão, autor do opúsculo Literatura de hoje. O duelo efectuou-se no Porto, no sítio chamado da Arca de Água, ficando Ramalho Ortigão levemente ferido num pulso. Ainda em 1865 publicou Antero do Quental em Lisboa, um outro opúsculo A dignidade das letras e as literaturas oficiais, em que atenuou alguns dos exageros da sua apreciação no opúsculo que provocara a questão coimbrã. Volvidas depois as publicas atenções para os factos político-sociais, interveio Antero do Quental nos debates do momento com a publicação dos opúsculos de combate: Portugal perante a revolução de Espanha, considerações sobre o futuro da política portuguesa. O ponto de vista da democracia ibérica, em 1868; e O que é a Internacional; o socialismo contemporâneo, o programa da Internacional; a organização da Internacional; as conclusões, em 1871, este sem o nome do autor.

Entretanto, promoviam-se em Lisboa, no salão do Casino Lisbonense, as Conferencias democráticas, cujo programa tem a data de 16. de maio de 1871, e é assinado além de Antero do Quental, por Adolfo Coelho, Augusto Soromenho, Augusto Fuschini, Eça de Queiroz, Germano Vieira de Meireles, Guilherme de Azevedo, Jaime Batalha Reis, J. P. Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Salomão Saragga e Teófilo Braga. As Conferencias democráticas foram inauguradas por Antero do Quental, que também fez a segunda conferência, a qual teve por tema as Causas da decadência dos povos peninsulares nos três últimos séculos. Este notável discurso foi publicado no Porto no mesmo ano de 1871; nele dá Antero do Quental como causas da decadência de Portugal a monarquia e o catolicismo. Proibidas as Conferencias democráticas por uma portaria do então presidente do conselho de ministros, o marquês de Ávila e Bolama, Antero do Quental publicou a sua Carta ao Ex.mo Sr. António José de Ávila, marquês de Ávila, presidente do conselho de ministros, que está escrita com veemência e enérgica indignação. 

Afastando-se por essa época da vida pública, após uma viagem aos Estados Unidos, dedicou-se mais especialmente Antero do Quental às preocupações literárias entrando na nova polémica literária suscitada pela versão do Fausto, de Goethe, pelo visconde de Castilho, desta vez do lado deste e seus amigos e admiradores; dessa época é também o seu opúsculo Considerações sobre a filosofia da história literária portuguesa, em 1872, onde aprecia o livro de Oliveira Martins sobre Camões e os Lusíadas e a Teoria da história da literatura de Teófilo Braga. Em prosa há dispersos por jornais e revistas, muitos artigos dignos de leitura e meditação, como acerca de Lopes de Mendonça, nas colunas duma folha operária do Porto. Deve-se também mencionar os seus manifestos políticos, quando o Partido Socialista, em 1880, lhe indicou o nome aos eleitores como candidato a deputado por um círculo de Lisboa. Em 1892, o livreiro Gomes, de Lisboa, editou o volume raios de extinta luz, poesias inéditas de Antero de Quental, com outras pela primeira vez coligidas, precedidas de um esboço biográfico por Teófilo Braga. Das suas obras poéticas, além da imitação dum soneto por Manuel del Palacio, traduções em espanhol por Frederico Balart, segundo comunicação de Sanchez Moguel, havendo a Illustracion Española y Americana apresentado já especímenes desta versão; de Manuel Curros Enriquez; e de Baldomero Escobar. Em francês, além de Fernando Leal, traduziram Antero do Quental o autor de Epines et roses, em Gouttes d'Ame, Paris; Achille Millien, em suas Fleurs de poesie, morceaux des poétes étrangers contemporains, traduits en vers; Maxime Formont no capitulo III da sua obra Le Mouvement poétique contemporain en Portugal, Lyon, 1892; e H. Faure. Em italiano, contam-se as versões de Marco Antonio Canini, Giuseppe Cellini, Domenico Milelli, E. Teza, G. Zuppone-Strani, com quem colaborou o autor das Fiori d'Oltralpe, onde, além da tradução de varias poesias insere igualmente a versão siciliana Zara, traduzida outrossim em dialecto corso por A. P. Fioravanti; esta poesia, bem como os sonetos A Virgem Santíssima e Quia aeternus, em italiano, foi traduzida outrossim por Prospero Peragallo e Clelia Bertily; desta versão se encontra uma reprodução no livro de António Padula, I nuovi poeti portoghesi, onde também se vê uma tradução Dos Cativos em prosa. Do epitáfio Zara, há também uma tradução em italiano por Francisco Accineili. A edição poliglota Zara (Lisboa, Imprensa Nacional, 1894) compreende traduções em latim, italiano, siciliano, calabrês, napolitano, bolonhês, romanhol, veneziano, veronês. milanês, genovês, romanche, francês, valão, bearnês, delfinês, provençal, e catalão, maiorquino, castelhano, asturiano, mirandês, galego, romeno, polaco, boémio, russo, esloveno, eslovaco, croata, grego, albanês, inglês, sueco, dinamarquês, norueguês, neerlandês, alemão; daco saxónico, bretão, irlandês, daco-cigano, hebraico, árabe, finlandês, húngaro e basco. A estas versões cumpre aditar as posteriores em russo, em eslavo de Montenegro e em arménio antigo e moderno. Das outras obras poéticas de Antero do Quental resta registrar as traduções em inglês pelo dr. Richard Garnett e por Edgar Prestage, benemérito das letras lusitanas. Em alemão outro benemérito de nossa literatura, Wilhelm Storck, publicou uma versão dos Sonetos de Quental. Em sueco os traduziu Goran Bjorkman, como em dinamarquês recentemente Karl Larsen, professor da Universidade de Copenhaga. Dos escritos em prosa de Antero do Quental há da Carta autobiográfica a Storck, versões em alemão e em inglês; e desde 1882 uma tradução espanhola do estudo crítico A poesia na actualidade, traslado devido a Ricardo Caruncho, e impresso em Corunha.

O péssimo estado de saúde de Antero de Quental, a que debalde buscava remédio no conselho das sumidades da ciência médica, como Charcot em Paris, acabara por o obrigar ao retiro de um isolamento completo, em Vila do Conde, onde em 1890, quando se deu o Ultimato inglês, o entusiasmo da mocidade académica portuense o foi buscar, oferecendo-lhe a presidência da Liga Patriótica do Norte, agremiação oriunda dum comício popular. A Liga Patriótica do Norte, porém, fracassou; e na sequência dos sucessos, veio Antero de Quental a regressar à sua terra natal, onde inesperadamente o público culto foi alarmado pela surpresa da terrível notícia do suicídio do grande poeta. No ano de 1896 apareceu no Porto, editado por Mathieu Lugan, um volume In memoriam, de Antero de Quental, colaborado por alguns dos seus mais íntimos amigos pessoais, trazendo dois apêndices, um de Ernesto do Canto, outro a excelente bibliografia Anteriana, de Joaquim de Araújo.

A este estudo se ligam os opúsculos seguintes: do mesmo Joaquim de Araújo, Bibliografia Anteriana, resposta a alguns reparos do sr. Delfim Gomes, Coimbra, 1896, e Bibliografia Anteriana, resposta aos srs. Delfim Gomes e José Pereira Sampaio, Génova, 1897; de Delfim Gomes, Bibliografia Anteriana, notas ao ensaio do sr. Joaquim de Araújo Coimbra, 1896; Biblioteca Anteriana, defesa de algumas notas impugnadas pelo sr. Joaquim de Araújo, Coimbra, 1896, e Bibliografia Anteriana, a propósito da «Resposta» do sr. Joaquim de Araújo aos srs. Delfim Gomes e José Pereira de Sampaio, por José de Azevedo e Meneses, Barcelos, 1897.

Informação retirada daqui

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Português - Biografia de André de Resende

Nasceu por volta de 1495/8-1506 em Évora.
Morreu em 1573

Humanista do século XVI, a quem se ficaram a dever os primeiros estudos sobre arqueologia de Évora, e veio a morrer, já septuagenário, depois de uma existência que não foi sem brilho social e cultural.

Filho da família eborense Resende, educou-o sua mãe, fazendo-o ingressar na  ordem dominicana, em que os seus talentos ganharam a confiança dos superiores, que o mandaram completar os estudos superiores em universidades estrangeiras, de Espanha e de França. Passou assim pelas Universidades de Alcalá de Henares e de Salamanca, na qual foi discípulo de Nebrija, do português Ayres Barbosa e do flamengo Clenardo.

Depois do doutoramento em Salamanca, seguiu para Paris, em cujos meios universitários tanta evidência tiveram seus talentos, que o diplomata D. Pedro de Mascarenhas, embaixador de Portugal junto de Carlos V, em Bruxelas, o chamou para o imperador o conhecer.

Pouco demorou, porém, na capital brabantina e desconhece­-se‑lhe a causa da brusca partida inesperada, em 1534, de regresso ao Reino.

Falecimento da mãe estremecida? Chamada de D. João III, já então ocupado com a reforma e restauração da Universidade em Coimbra, que havia de realizar‑se em 1537?

Importa muito menos penetrar este mistério do que saber­-se ter‑lhe sido confiada a Oratio pro rostris, sua obra mais citada, que pronunciou, como Oração de Sapiência, na abertura do ano electivo da Universidade, ainda em Lisboa.

Já veremos que o humanista se desempenhou admiravelmente do encargo, animado do espírito do século, que nele haviam avivado as relações com seus velhos mestres e com o próprio Erasmo.

Nomeado, por D. João III, mestre do infante D. Duarte, seu irmão, e regendo ao mesmo tempo a cadeira de Humanidades na Universidade, com a qual seguiu para Coimbra, quando da transferência e sua reforma em 1537, obteve do papa a secularização, que lhe dava a maior liberdade.

Em 1551, ainda teve a seu cargo a Oração de Sapiência, mas quatro anos depois era demitido do professorado, depois do que regressou enfim, cerca dos cinquenta anos de idade, à cidade natal, onde se fixou e abriu para ensino particular um curso para Humanidades.

Porque teria sido demitido de Coimbra?

Ignora-se o motivo. Talvez iniciativa dos colégios universitários. Não seria difícil de invocar, para determinar-lhe a demissão, certo destempero de temperamento, demonstrado em sua primeira «Oratio pro Rostris». Aquela sua invectiva contra a crassa minerva canonistarum que comprometem as litteras humaniores que ele próprio professava; aquela exaltação das letras acima das armas, porque, pela indagação da verdade, conferiam a imortalidade e a fama, invejadas dos próprios reis; aquela veemência com que, depois de exaltar o valor da Gramática, que tem maior conteúdo do que o aparenta o aspecto (quae plus habet in recessu quarn in fronte) porque é anais do desenvolvimento da razão, increpa as sórdidas, ignorantes criaturas que dão pelo nome de gramáticos; o mesmo despejo de linguagem contra os que, por seu turno, ignorando as línguas clássicas grega e latina, chave da poesia, da eloquência e da dialéctica, a estas comprometem, pois que à maneira de porcalhões, mais asnos do que homens, com estentórea voz, silogismos mentirosos e palavras de monstruosa invenção, espalhafatosamente debateram sobre o que não sabem - tudo isso patenteia um ímpeto que dificulta a sociabilidade. O mestre em artes era, ao menos quando jovem, um rude fundibulário...

Regressado, pois, à sua cidade natal, ali vai regendo sua aula de Humanidades, continuando pela pregação o seu múnus sacerdotal, e teria já começado a interessar-se por investigações arqueológicas da terra eborense, as quais, no fim da vida, foram sua exclusiva forma de actividade de espírito, quando o cardeal-infante D. Henrique fundou a sua Universidade católica de Évora.

São então proibidas as escolas particulares que pudessem desviar alunos dos cursos nelas professados, mas excluía-se da lei a de André de Resende -que, aliás, não aceita o regime de excepção.

E é então que, até à morte, se consagra intensivamente à Arqueologia. Como historiógrafo legou-nos, além de crónicas manuscritas, a obra De Antiquitatibus Lusitaniae, por que entre nós se inicia o estudo documentado do domínio romano na Lusitânia, e a História da Antiguidade da Cidade de Évora; como agiólogo, A Santa Vida e Religiosa Conversão de frei Pedro, porteiro do Convento de S. Domingos, e a Vida de S. Domingos de Cuba; como poeta, foram várias as poesias em português e latim, dentre as quais alguns poemas, um dedicado a São Vicente, impresso com mais composições, orações e cartas em Colónia, em 1545.

Finalmente, ao gramático ficou-se devendo um Comentário da conjugação dos Verbos, e até o compositor deixou em seu espólio o Ofício de São Gonçalo e o Ofício de Santa Isabel. São numerosas as suas cartas.

Falecido em Évora, em 1573, o túmulo que lhe guarda os restos mortais está na Sé Catedral.

Fontes:
Carlos Selvagem e Hernâni Cidade, Cultura Portuguesa, 5, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1971, págs. 42-46

sábado, 14 de janeiro de 2017

Português - Resumo sobre texto não literário/texto literário ...


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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Português - Resumo sobre poema, estrofe, verso ...


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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Português - Ficha de Trabalho - 8ºAno - Enriquecimento lexical: sinónimos, hipónimos e hiperónimos


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domingo, 8 de janeiro de 2017

Português - Ficha de Trabalho - 5ºAno - Interjeições


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Inglês - Powerpoint - Democracy


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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Inglês - Powerpoint - Present Simple


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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Inglês - Powerpoint German Nazism


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